Medo e Delírio na Vila Madalena

Medo e Delírio na Vila Madalena

Jean Paz escreve a coluna Baixaria Sonora todas as terças-feiras e em seu blog, também Baixaria Sonora.Baixaria Sonora: Aconteceu na Rua Augusta

2014 entrava em sua reta final. A seleção brasileira já tinha sido humilhada pela seleção alemã, no pior vexame da história das Copas do Mundo. E eu estava praticamente falido.

Era sábado, e eu estava estudando as opções de rolê em que eu poderia entrar de graça e passar a noite com um copo de catuaba morno na mão, enquanto flertava com o maior número possível de pessoas tão falidas quanto eu.

De repente chega uma mensagem no meu celular:

“Oi. Tá fazendo o que? Quer dar um pulo no Zé Presidente comigo? Estou no bar que fica em frente, com algumas amigas”.

Tagore

Era a garota com nome de fruta com a qual eu saía na época, e que costumava me pagar umas cervejas quando eu estava com a situação financeira complicada (ou seja, quase sempre).

Respondi que não tinha grana e que já estava me preparando para dormir.

Ela prontamente me respondeu: “Ah, vem, minha amiga Bi tá aqui, e quer falar com você pessoalmente”. (Mais tarde descobri que Bi era abreviatura de Fabiana ou Bianca ou Fabíola, não me recordo. E que seu assunto comigo era o contato de um amigo cuja foto ela viu em minhas redes sociais).

Mas naquele momento, minha mente pervertida imaginou outra coisa, e falei para ela que chegaria em 27 minutos.

Tomei um banho caprichado, aparei o bigode e em pouco tempo estava lá no bar.

(não sem antes beber um rabo de galo em cada boteco que cruzava meu caminho).

Bebemos umas (dúzias?) de cervejas e perguntei qual era o plano. A garota com nome de fruta comentou que a ideia era ir para o Zé, assistir a umas bandas e depois ir para a casa da amiga.

Me pareceu uma ideia irresistível no momento.

E lá fomos nós.

Era a segunda ou terceira vez que eu entrava no Zé, e para variar eu tava bêbado demais para lembrar da disposição física do espaço.

E logo de cara me perdi delas.

Para minha tristeza, lá não tinha catuaba e eu tampouco havia levado uma garrafa na mochila (prática comum na época).

Peguei uma long neck e fiquei na clássica posição que marcou minha vida: escorado com o cotovelo no balcão do bar, enquanto uma banda passava o som e jovens ripongas circulavam emulando aromas de incensos e cigarros artesanais.

Quando a banda parou de passar o som, resolvi ir em busca das garotas.

Pedi licença a uma entidade de uns 2 metros que estava parada em frente as escadas, de pés descalços e que parecia um Jesus tropical derretendo de LSD.

Subi tropeçando em minhas próprias pernas e ao chegar num espaço externo, me deparei com o Lirinha, ex-vocalista do Cordel do Fogo Encantado, que alguns anos antes havia lançado seu primeiro disco solo, que derreteu minhas ideias e me rendeu uma tatuagem.

Não gosto muito de abordar meus “ídolos”, mas naquele momento achei que devia mostrar a tatuagem a ele.

Conversamos um pouco, e ele comentou que o Henrique, ex-baterista do Cordel ia tocar com a banda que fecharia a noite.

Achei bem massa. E me despedi dele, sem sequer perguntar o nome da banda.

E encontrei as garotas ali perto, elas haviam subido para fumar e respirar um pouco de ar puro, que na verdade não era tão puro assim.

E assim perdemos o primeiro show.

Quando descemos, a segunda banda, do ex-baterista do Cordel estava se preparando para tocar. E aquela entidade com a qual eu me deparei minutos antes fazia parte da banda.

Doideira.

Assim que a banda subiu ao palco, percebi que a noite enfim começaria a entrar nos eixos.

Após o vocalista anunciar que eles eram a “Tagore, de Pernambuco”, entramos em sintonia.

Seu som remetia à psicodelia pernambucana dos anos 70.

Logo no inicio do show mandaram sua versão para “Dois Navegantes”, dos seus conterrâneos Ave Sangria, que entrou no primeiro Cd da banda, “Movido a Vapor”, lançado em 2014, e que contava com um bebê ostentando um cigarro na boca. 

A música que dá nome ao disco me fez viajar para um lugar que eu já conhecia, mesmo sem nunca ter pisado lá.

Quando eles tocaram “Ilhas Cayman”, eu já tava caçando moedas nos bolsos para comprar o cd no final do show. Mas para variar, eu não tinha um puto.

E assim que o baixo Danelectro de João Cavalcanti começou a tocar os primeiros acordes de “Todos os olhos”, do mestre Tom Zé e que a banda também gravou para seu primeiro disco, eu tive um orgasmo. Fiquei em choque.

Foi a melhor versão para um clássico da música brasileira que eu já ouvi na vida.

De repente e não mais que de repente, cai no choro. 

Olhei para o Lirinha, e ele também estava emocionado.

Naquele momento, todos pareciam emocionados para mim. 

Dali em diante, reza a lenda que eu tirei a camiseta e fiquei dançando freneticamente com ilustres desconhecidos e desconhecidas, com um sorriso de orelha a orelha estampado no rosto.

Mas isso eu não lembro. E se eu não lembro, eu não fiz.

Como alegria de bêbado dura menos que alegria de pobre, o show acabou.

E assim que acabou, fiz questão de cumprimentar os músicos um por um, e colei no canto do palco, com a barba ensopada de suor, cerveja e baba e abracei cada um dos músicos, falando algum idioma indecifrável, pois estava tão bêbado que a língua enrolava e as palavras não saiam.

Minha garota com nome de fruta se solidarizou e me ofereceu uma garrafa de água. Bebi inteira num gole só e ela serviu para desenrolar minha língua, que voltou a caber na minha boca e eu consegui enfim voltar a emitir sons compreensíveis.

E comecei a bater um papo com o vocalista da banda (que se chama Tagore Suassuna e é neto de um primo do Ariano), e apesar de não lembrar muito bem sobre o conteúdo da conversa, sei que rimos bastante.

E perguntei onde eu encontrava o Cd, porque queria muito um exemplar, mas não tinha grana.

Ele me deu uma cópia. E não encontramos uma caneta para ele autografar.

Agradeci emocionado o presente, elogiei o som, e nos despedimos.

E segui meu caminho.

Voltei para os braços da minha garota com nome de fruta, bebemos mais algumas cervejas, e aos poucos as coisas foram perdendo as formas, as palavras foram perdendo os sentidos, minha língua voltou a enrolar e assim que entramos no carro dela, capotei.

Acordei nú, com uma dor de cabeça absurda, em um quarto escuro desconhecido.

Mas com o cd são e salvo na mesa de cabeceira.

E era só isso que importava naquele momento.

 

Para ouvir a melhor versão de uma música nacional de todos os tempos, é só clicar aqui:

 

Para assistir à apresentação da banda no estúdio Showlivre na época, é só clicar aqui:

 

Tagore tocando “Dois Navegantes” do Ave Sangria:

 

E esse é o single “Olho Dela” recém lançado pela banda:

 

Para conhecer um pouco mais sobre a banda, dê aquele play esperto no Spotify:


Expedição CoMMúsica

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