Autoras independentes lançam livro inspirado no corpo feminino

Autoras independentes lançam livro inspirado no corpo feminino

Desde o início desta semana, o público leitor feminino pôde se ver representado nos textos de sete escritoras de várias cidades do Brasil que publicaram a coletânea de contos “De Corpo Inteiras”, assinada pelas autoras Carla Guerson, Carol Aguiar, Emanuela Ribeiro, Lícia Mayra, Michele Fernandes, Milena Maria e Raquel Catunda. A iniciativa foi do Coletivo Escreviventes, grupo de autoras independentes, e a proposta foi escrever sobre vivências femininas.

Autoras independentes lançam livro inspirado no corpo feminino

Logo na sinopse da obra, já podemos perceber a força de seu conteúdo:

“Em uma coletânea de contos corajosos e envolventes, as integrantes do Coletivo Escreviventes nos apresentam as muitas facetas do ser mulher. Abordando assuntos diversos, que vão de amizades e relações familiares a direitos reprodutivos e relacionamentos abusivos, os contos relacionam-se às diversas partes do corpo de uma mulher. Os pedaços, vistos a partir da visão dessas sete mulheres, compõem um uno perfeito e incômodo, como o corpo da mulher na sociedade em que vivemos.”

O livro está sendo disponibilizado na versão e-book pela plataforma Amazon no valor de RS5,99 e gratuitamente para assinantes do Kindle Unlimited.

O link para compra na Amazon: clique aqui

Você pode encontrar o Coletivo Escreviventes no Instagram pelo perfil @coletivoescreviventes.

Segue abaixo um dos textos que compõe a coletânea, um dos seis contos assinados por mim.

 

ALGEMADA

Michele Fernandes

 

Achei que seria fácil pedir o divórcio, um desejo que tanto pulsou em mim até que me encorajei e falei ao Adílson. Depois de ele bater pé e fazer beicinho, resolveu colocar uma algema e quebrar a chave, prendendo os nossos pulsos para sempre. O problema foi que, logo depois disso, nervoso que estava com a situação, ele sofreu um ataque cardíaco e morreu.

Procurei ajuda de várias formas possíveis. Primeiro, tive o impulso de ir falar com quem entende de morte, o padre. Ele disse que rezaria pela alma do meu marido. Falou também que poderíamos, eu e o falecido, participar do grupo de casais da igreja. Agradeci o convite, mas deixei passar, afinal a igreja tinha quinhentos e noventa e sete degraus, era demais para se subir arrastando um defunto. Carregar o marido morto é dolorido, o pulso fica ardendo e avermelhado.

Também procurei um especialista em quebrar algemas, mas, por ser uma técnica muito sofisticada, sairia muito caro. Se fosse procurar um profissional barato, havia sempre o risco de também lesionar a parte viva. Eu precisaria de algum tempo para juntar o dinheiro e, assim, poder pagar um algemista de qualidade.

Busquei, então, o apoio da família, que me recebeu de braços abertos. Vendo tanto amor e carinho, perguntei se poderia voltar a morar com eles. Para mim, seria muito bom ter pessoas que me ajudassem a ter força para arrastar o Adílson de um lado a outro. Eu já quase nem sentia a minha mão de tão apertada pela algema no pulso. No entanto, os braços acolhedores se fecharam quando notaram que o finado fedia. A parentada queria ele, ou melhor, nós, bem longe.

Num dia desses, levei o cadáver do Adílson até a casa da minha amiga Laís, uma companheirona da época que eu era solteira. Eu precisava conversar com alguém. “Poxa, Verônica, eu tava pensando em a gente marcar de dar uma saída à noite, mas, com esse teu encosto, não vai rolar.” Pensando bem, eu também não quero. É que o meu pulso anda horrível, cheio de marcas e necroses.

Coisas que parecem comuns a qualquer um, pra mim, são complicadas. Outro dia, por exemplo, eu fui a uma praça levar o presunto para dar uma arejada e ver se aliviava o odor. Sentados num banco, uma sombra cobriu o sol e vi que eram urubus se aproximando. Lembrei que essa era a chance: o Adílson seria comido pelas aves carniceiras e sumiria de vez da minha vida. No entanto, quanta decepção! A revoada veio em cima de mim. Tentei correr apavorada, mas, presa pelo pulso, fui toda bicada. Só dava eu me enfiando embaixo do morto para tentar me proteger dos ataques. Precisei voltar para casa vestida no couro do Adílson.

Depois dessa, não saio daqui de casa de jeito nenhum. Já espalhei perfume e desinfetante por todos os cantos, mas não tem jeito. Faça o que eu fizer, estou atada ao meu marido e sou obrigada a arrastar esse peso morto para todos os lados e suportar o seu fedor o tempo inteiro.

Sinto que é hora de resolver essa questão de um jeito definitivo. Pego uma machadinha. Miro perfeitamente sobre o pulso. Essa é a hora da liberdade. Vejo a mão cair, o sangue escorrer, a algema deslizar até o chão. Jatos de sangue esguicham acompanhando a frequência cardíaca, que vai parando gradativamente. Olho o rosto pútrido do Adílson. Ele parece esboçar um sorriso de deboche. Na verdade, é apenas uma larva que está comendo o seu lábio.

E eu já não pulso.


Expedição CoMMúsica

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