Conta Comigo • Feliz Natal!

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Um conto de Michele Fernandes

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Então é Natal, diz a música! Os telhados já estão acesos. Os pinheiros competem qual ostenta os enfeites mais belos. A esta hora, o shopping já deve estar contabilizando os lucros da gentileza de doar presentes e as famílias todas reunidas para confraternizar no silêncio dos seus celulares. Mas não para Inácio, que está agora no hospital engatado em um soro, remédios e um monitor multiparamétrico.

Poderia ser pior, poderia estar sozinho. Mas Jardelina está com ele. Ela está com ele de bom grado. Na verdade, até satisfeita com o encontro. Foi opção dos filhos não serem os acompanhantes do pai nessa internação. A filha foi visitá-lo na última sexta-feira. Entrou como visita, ficou por trinta minutos, em silêncio. Inácio está inconsciente. Entrou em coma depois do último acidente vascular encefálico homorrágico e, segundo as próprias convicções da filha, não faz muita diferença ter ou não alguém por perto.

Jardelina puxa pela memória para lembrar se ele realmente foi um bom pai para Mirna. Ao que ela se lembra, sim. Brincava muito com ela. Construiu uma casinha de brinquedo e era sempre ele o visitante a ser servido com o chá de capim e bolinhos de barro feitos com esmero pela filha. Talvez tenha sido implicante com os namorados, mas depois acabou ficando muito amigo do genro. Quando o casal ia visitar a família, sequer ficava junto. Mirna sempre colocava a conversa em dia com a mãe, enquanto seu marido trocava risadas regadas à cerveja, na área da churrasqueira. Riam ninguém sabia de quê.

Para o filho, Jardelina tem mais certeza ainda de que Inácio foi um bom pai. Andavam juntos sempre. Iam, a cada Grenal, ao Olímpico assistir aos jogos do Tricolor. Concordavam nos pênaltis a favor e na conspiração do juiz nos dias de derrota. Inácio gastou toda a poupança para deixar de pagar aluguel no colégio particular quando viu que Roberto iria repetir o ano mais uma vez. Esses professores de escola pública só querem fazer greve, ele dizia, e o filho dava forças. Foi bom, o menino virou homem entendendo que nada neste país presta e já mora há sete anos em Portugal. Viria ver o pai assim que passassem as festas de final de ano.

Jardelina observa a movimentação do pessoal da enfermagem até desaparecer todo mundo em uma sala interna. As vozes altas entregam o motivo: estão fazendo um amigo secreto entre os escalados para o plantão naquela noite. De vez em quando, sai alguém da salinha e dá uma olhada rápida nos pacientes do CTI. Felizmente, ninguém com morte marcada para o dia 24. Risadas altas, palmas, muita alegria como deve ser em uma noite de Natal. Simone, mais uma vez, pergunta o que você fez? Jardelina não fez nada nos últimos dias além de zelar por Inácio.

Em seu tempo de meditação, perguntou-se se o marido merecia tanto zelo. Foi ele um bom marido? Ela não tinha uma resposta precisa para isso. Ele, com certeza, foi um bom provedor. Numa época em que mulheres trabalhadoras eram malvistas, ela sempre reprimiu o seu desejo de ser uma profissional. Teve por algum tempo um plano secreto de estudar jornalismo para trabalhar em uma das revistas que costumava ler. Falaria de cuidados com o lar, ensinaria as receitas secretas que aprendeu com a mãe, discutiria a importância de uma palmada na hora certa e daria dicas de cuidados com a pele e sobre como manter um casamento sem conflitos. Este último item foi a especialidade de sua vida. Afinal, foram trinta e sete anos de quarto compartilhado.

Apenas uma vez o seu casamento passou por um abalo. No Natal de quarenta anos atrás, ela recebeu um cartão muito especial. Um remetente anônimo desejou, ironicamente, que ela tivesse um “Feliz Natal” com o marido que preferira passar as festas de fim de ano com ela e não com a sua outra família, uma mulher e um filho de três anos, que mantinha em segredo. Primeiro, reagiu com negação. Inácio, sempre trabalhando, não teria tempo para encontros amorosos e nem dinheiro, acreditava ela, para sustentar mais duas pessoas. Isso só podia ser coisa de gente intriguenta. Ela até comentou sobre a carta com ele durante o jantar. O assunto não seguiu adiante, pois, nesse dia, Inácio teve um colapso, devido à estafa e passou a noite de Natal no ambulatório. Foi a primeira vez, aliás, que ela passou a “noite feliz” com ele em um hospital.

Porém, os anos passaram, e a carta se transformou em um pensamento fixo na mente de Jardelina. Tudo o que o marido fazia era motivo de desconfiança. Tornou-se uma mulher ciumenta, do tipo que revista bolsos e cheira camisas. Um dia, encontrou uma nota fiscal de supermercado. Era uma compra que dava para uma pequena família durante um mês, mas nada em comum com o que costumavam comprar. Achou melhor colocar novamente no bolso e nunca mais tocar no assunto. De que adiantava mexer no abelheiro se não queria levar ferroada? Ela se deu conta de que jamais poderia se manter sem o marido. Reprimiu a terrível sensação de se sentir traída. Mas os natais nunca mais foram os mesmos.

Resolveu tomar outra atitude em vez de pedir o desquite. Tentou criar sua filha de um jeito diferente do que fora criada. Mirna sempre foi incentivada a estudar, trabalhar e ser independente. Mesmo frequentando apenas escolas públicas, conseguiu passar no vestibular da Federal. Hoje é professora universitária, um orgulho para sua mãe. Divorciou-se quando quis e é ela própria quem dirige a sua vida. Nesta noite, 24 de dezembro, preferiu passar o Natal com o seu único filho. Como o garoto arrumou uma namorada, acabou deixando a mãe para fazer um grau com a família da menina. Agora Mirna dorme.

Quanto ao casamento de Jardelina, ela perdoou Inácio sobre a possibilidade de ele ter dado alguma escapada no casamento. Ela o perdoou quando passou por aquele período imenso de tratamento, internações e muita, muita dor. Foi um câncer no rim esquerdo. Inácio a acompanhou em tudo, foi com ela em cada consulta, fez companhia nas quimios, brigou com o médico que não queria dar morfina enquanto ela gemia de dor,… Ele escolheu ficar com ela mais uma vez. A única coisa que ela não perdoou foi por Inácio não saber o que era ter um Natal estragado.

Mais risadas na sala da enfermagem. O relógio vira a meia-noite. A música se silencia. O monitor cardíaco dá um longo grito agudo. Uma enfermeira corre na direção de Inácio. Ele levanta da cama, olha para Jardelina, que diz:

– Feliz Natal, querido!


Conta Comigo • Feliz Natal!, conto de Michele Machado Fernandes

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