Lendo Mulheres e Conhecendo o Mundo

Lendo Mulheres e Conhecendo o Mundo

 

Lendo Mulheres e Conhecendo o Mundo é artigo de Michele Machado Fernandes em sua coluna semanal Conta Comigo! na Expedição CoMMúsica. Conteúdos inéditos sobre escrita autoral de mulheres no Brasil e no mundo.

 

 

Se ler mulheres é fundamental, conhecer seus conflitos — tão semelhante e, ao mesmo tempo, tão únicos — se torna uma experiência ainda mais rica quando diversificamos nossas leituras, buscando contato com obras das diversas partes do mundo.

 

Lendo Mulheres e Conhecendo o Mundo
Lendo Mulheres e Conhecendo o Mundo

 

Sendo assim, vou falar de autoras que já li, representando países diversos:

América

Brasil: Aqui encontramos muitas mulheres escritoras dando show, mas hoje vou citar um nome que já se tornou essencial em nossa literatura: Conceição Evaristo. Da autora já li “Ponciá Vicêncio”, obra que conta a história de uma mulher negra, que sai do campo atrás de uma vida melhor, e “Olhos D’Água, um magistral livro de contos focado em personagens excluídos socialmente.

Chile: Um livro que agregou muito no meu conhecimento sobre a América Latina foi “A Casa dos Espíritos”, de Isabel Allende. Fala sobre ditadura, imperalismo, patriarcado e muito em uma narrativa imersa em realismo mágico. A história se passa no Chile, mas as similaridades com o Brasil são espantosas. Foi uma das minhas leituras preferidas do ano passado.

Cuba: “Cachorro Velho”, de Teresa Cárdenas, obra que ganhou o Prêmio Casa de Las Américas, é uma leitura rápida, porém profunda. Relata a vida de um homem escravizado, adentrando em seus sentimentos de raiva, de abandono, de falta de perspectivas. Cachorro Velho, como é chamado, é um homem idoso, mergulhado em lembranças.

Estados Unidos: Apesar de ser um país muito prolífico em literatura, principalmente na (linha de) produção de best sellers, há uma obra em especial que se destaca entre tudo que já li de autoras estadunidenses: “A Mão Esquerda da Escuridão”, de Úrsula K. Le Guin. Nesta ficção científica, a autora criou um planeta inteiro com uma estrutura bem detalhada de sociedade, política, cultura, etc. Como se isso não fosse suficiente, a população deste planeta é andrógina, o que nos faz refletir sobre a interferência da dicotomia homem-mulher no desenvolvimento de uma sociedade.

Canadá: Aqui indico Margaret Atwood e o seu renomado “O Conto da Aia”.  A obra consiste em uma distopia que se desenrola sob um regime opressor, que coloca a mulher na posição de procriadora e nada mais que isso.

Europa

Itália: A primeira da minha lista de italianas é Elena Ferrante. Minha obra preferida dela é “A Amiga Genial”. Este livro traz duas amigas que crescem juntas num vilarejo pobre de Nápoles. Os seus destinos, porém, vão se diferenciando com o passar dos anos. Também indico “A Filha Perdida”, da mesma autora, que traz a maternidade de forma não romantizada.

França: Mais um país com uma literatura muito rica. Escolho para citar aqui “A Convidada”, de Simone de Beauvoir, um romance de traços autobiográficos, que traz um relacionamento aberto entre Francoise, Pierre e Xavière às vésperas de eclodir a 2ª Guerra Mundial. Este romance ilustra alguns conceitos filosóficos, como a consciência, o “ser-para-o-outro” e a liberdade, que traz em si a responsabilidade.

Inglaterra: Mais um país em que a lista de leituras é imensa. Não posso deixar de registrar que as primeiras escritoras pertencentes a um cânone vieram desse país, como Jane Austin, Mary Shelley e as irmãs Brontë. Desta vez, vou indicar Virgínia Woolf com sua obra “Mrs. Dalloway”. Uma marca da autora é o uso do fluxo de consciência, técnica narrativa que leva o leitor a adentrar nos pensamentos dos personagens. É assim que conhecemos à fundo os pensamentos de Clarissa e os pormenores de um dia em que ela dará uma festa.

África

Nigéria: Ainda não li muitos livros do continente africano, porém “Fique comigo”, de Ayòbámi Adébáyò, é uma leitura vai me marcar para toda a vida. O romance traz a vida do casal Yejide e Akin e sua batalha para conseguir ter filhos, tudo num contexto histórico e social muito bem delineado e entrelaçado aos acontecimentos do enredo.

Ásia

Irã: Indico uma referência no mundo das HQs – “Persépolis”, de Marjane Satrapi, uma cartunista iraniana. O livro narra a própria história da autora, contando sua infância, adolescência e início da vida adulta, fases marcadas por mudanças políticas que trouxeram ao seu país opressões e imposições religiosas.

China: Uma obra desse país que julgo ser essencial é “As Boas Mulheres da China”, de Xinran. A autora foi uma famosa radialista que se interessou em registrar algumas histórias reais e chocantes de mulheres que lhe mandavam cartas. É, antes de tudo, uma denúncia social sobre desigualdade de direitos contra o gênero feminino.

Essas são apenas algumas indicações de obras lidas. A verdade é a minha lista de futuras leituras de obras produzidas por mulheres não para de crescer e no que se trata de obras de países diversificados, a lista é a que segue abaixo:

África do Sul: “Sem Gentileza”, de Futhi Ntshingila;

Angola: “Luanda, Lisboa, Paraíso”, de Djaimilia Pereira de Almeida;
Moçambique: “Caderno De Memórias Coloniais”, de Isabela Figueiredo;

Ruanda: “A Mulher De Pés Descalços”, de Scholastique Mukasonga;

Somália: “O Pomar Das Almas Perdidas”, de Nadifa Mohamed;

Argentina: “Morra, Amor”, de Ariana Harwicz;

Jamaica: “Bem-Vindos Ao Paraíso”, de Nicole Dennis Benn;

México: “As Lembranças Do Porvir”, de Elena Garro;

Coreia Do Sul: “A Vegetariana”, de Han Kang;

Israel: “Uma Noite, Markovitch”, de Ayelet Gundar-Goshen;

Alemanha: “Heimat”, de Nora Krug;

Bielorrússia: “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch (A autora nasceu na Ucrânia, mas sua cidadania é bielorrussa);

Polônia: “Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk;

Romênia: “A Raposa Já Era O Caçador”, de Herta Müller;

Nova Zelândia: “A Festa ao Ar Livre e Outras Histórias”, de Katherine Mansfield.

Fundamental ler brasileiras, mas compreender as mulheres de todos os lugares em suas similaridades e singularidades também ajuda na compreensão de nós mesmas.

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