Semearte • A arte de ser breve

Semearte • A arte de ser breve

Semearte • A arte de ser breve é artigo de Érika Ramos em sua coluna semanal na Expedição CoMMúsica e aborda dois gêneros da escrita: o haicai e o miniconto.

 

 

Como escritora, um dos meus maiores desafios é ser breve. Eu gosto de imaginar grandes cenas em cenários majestosos. Assim, desenvolvo uma narrativa elaborada.

Porém, como escritora, eu também gosto de me desafiar e experimentar gêneros diferentes, principalmente aqueles que desafiam meu poder de concisão.

A arte, seja escrita, cantada ou desenhada, não fica restrita a um único modo de fazer. Ela é plural e nos provoca a sair do lugar comum.

Uma das coisas que acredito é que a arte é um lugar de questionamento da sociedade e, através dela, reivindicamos um lugar de fala, um espaço para as mudanças que desejamos ver.

Dito isso, hoje quero falar de dois gêneros com os quais tive contato em oficinas de escrita criativa. São eles o Haicai e o miniconto.


1- Haicai:

Esse foi o mais desafiador, afinal, meu contato com o estilo era muito pequeno e eu quase não tinha referências. Mesmo assim, não me deixei intimidar. Fui atrás de desvendar os mistérios de versos tão curtos e tão impactantes.

O haicai vem da tradição japonesa e é uma forma de poesia japonesa que possui apenas três versos, e geralmente tem como tema a natureza ou as estações do ano.

Durante a oficina, fomos desafiados durante 15 dias a tirar da nossa realidade elementos para compor o haicai.

Não foi fácil, havia dias em que se espremia a mente e nada saia; noutros, vários pipocavam aos nossos olhos.

Às vezes, a regra do dia não funcionava e era preciso reinventar o jogo para não perder o ritmo.

O desafio de 15 dias também provocou reflexões contra a sociedade, que sempre corre contra o tempo entre planners e compromissos diários.

Foi desafiador, mas não estávamos sozinhos nessa jornada. Tivemos a orientação de Saulo Machado e Felipe Moreno nesse período para que mergulhássemos de cabeça no espírito do haicai.

O resultado dessa oficina foi um e-book gratuito organizado pela revista Mormaço e a editora Casa três, do qual tenho muito orgulho de fazer parte junto a tantos autores maravilhosos.

Aqui deixo o convite e o link para vocês conhecerem esse e-book que está lindo:

https://casatreseditora.art.br/produto/condensacao-imagens-e-poetica-do-habito/

 

2- Miniconto

Minicontos sempre me fascinaram porque deixam no ar aquela sensação do que aconteceu? O que vem depois?

E assim, a imaginação vai sem limites criar possibilidades para preencher as lacunas deixadas num curto espaço de texto.

Nesse gênero, é importante estar atento há algumas características:

a) Concisão: Resumir a ideia principal num evento, acontecimento, em poucas palavras. Corte o texto sem medo.

b) Narratividade: O texto deve contar uma história, não deve ser descritivo. É importante que a pessoa encadeie os acontecimentos.

c) Efeito: Deve provocar impacto no leitor, assim como um conto o faz.

d) Lacunas: não entrega tudo ao leitor, deixa espaços em branco para que o complete de acordo com sua imaginação e experiência.

A partir dessas características, a gente pode partilhar como foi a experiência de lidar com o gênero.

Nessa experiência, tive como professora na oficina a Letícia Fernandes Leal, que abriu meus horizontes e fez crescer o desejo de sempre continuar me desafiando na escrita.

O miniconto me desafiou porque, pra mim, era difícil criar uma narrativa em uma, duas linhas.

Os primeiros exercícios no gênero fugiam à proposta, mas como boa aprendiz eu me arrisquei. Não tive medo de apresentar minhas ideias, mesmo sentindo que ainda não havia entrado no clima do estilo.

A prática foi levando a coisas mais interessantes, e a mais leveza no processo. E a oficina me levou a me permitir brincar mais com as palavras.

Como já disse anteriormente nesse texto, a arte ela não se limita a um formato ou regra, ela é plural e diversa. Quando a gente se permite explorar descobre novas formas de nos expressar.

E esse foi o maior aprendizado dessas experiências que passei: a força da expressão.

Ela vem do nosso interior, das experiências que tivemos e poder transformar isso em poesia, em narrativa é o que me move o coração.

A narrativa breve em um curto espaço de tempo encontrou o caminho para o meu coração, acendeu um desejo grande de não parar de escrever e me fez expressar de forma inédita.

Para finalizar, quero deixar aqui um haicai e um miniconto que escrevi:

O céu
O pássaro cortou
Rasgou meu coração

Splash! O sorriso refletia a inocência de quem o pouco faz feliz.

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