Conta Comigo! Lendo mulheres do séc. XX

Conta Comigo! Lendo mulheres do séc. XX e o que aprendi a ler em cada uma de suas obras

Conta Comigo! Lendo mulheres do séc. XX é artigo de Michele Fernandes em sua coluna quinzenal na Expedição CoMMúsica. 

 

 

Conta Comigo! Lendo mulheres do séc. XX. Ilustração: Pixabay.

No artigo anterior desta coluna, escrevi sobre minhas aprendizagens em relação às leituras feitas de livros produzidos por mulheres no século XIX. Não posso deixar de repetir o quanto as considero verdadeiras desbravadoras por conseguirem, apesar de tantos obstáculos publicar seus escritos. No entanto, não podemos esquecer que as dificuldades diminuem a passos de formiga e, no século XX, ainda é uma façanha uma mulher conseguir espaço em meio aos nomes masculinos.

Um bom parâmetro, em nível mundial, é quando observamos as pouquíssimas escritoras laureadas com o Prêmio Nobel de Literatura. É possível conhecer mais detalhes acessando este artigo da coluna “O que Aprendi lendo Mulheres do Séx. XIX”

 

 

O que aprendi lendo mulheres do século XIX

 

 

Virginia Woolf e um teto para acolher mulheres

Mas, apesar dessa resistência aos nossos escritos, o leque vai, aos poucos, se ampliando. O eixo literário se amplia da Inglaterra para os Estados Unidos. Não podemos deixar de citar a inglesa Virginia Woolf, que nos deixou um legado de importância não apenas para a história da literatura como também para a do feminismo. Ela traz contribuições relevantes adotando o fluxo de consciência, exemplificado em “Mrs. Dalloway” (1925), romance onde a protagonista Clarissa Dalloway luta para manter o ritmo festivo da sociedade britânica, tendo como contexto o período de entreguerras, ao mesmo tempo que um personagem paralelo, Septimus, combatente na primeira guerra, batalha contra si mesmo e seu estresse pós-traumático. No âmbito dos ensaios, a autora se destaca com “Um teto todo seu” (1929). A obra discorre sobre o apagamento e silenciamento de autoras mais antigas e tenta reconstruir, por meio de uma história hipotética, como seria o tratamento dado a uma irmã (ficcional) de Shakespeare.

 

Ursula K. Le Guin e seus universos

Entre as autoras estadunidenses, encontrei nomes como Ursula K. Le Guin, antropóloga, capaz de criar universos complexos como o de “A mão esquerda da escuridão” (1969), uma ficção científica ambientada em um planeta gelado, habitado por seres bissexuais. O ponto de vista é interessante, e Le Guin já traz algo que enxergo com muita força na escrita produzida por mulheres: discutir o status quo.

 

Toni Morrison e o único Nobel para uma mulher negra

Podemos falar o mesmo, por exemplo, de Toni Morrison, única escritora negra a receber um Nobel de literatura, com o seu “O Olho mais Azul” (1970), que traz a vida de uma menina oprimida de todos os modos possíveis em função da cor da sua pele.

 

Júlia Lopes de Almeida e a falência da sociedade brasileira

Em solo brasileiro, as mulheres são notadamente excluídas, basta observarmos a trajetória de luta por um lugar na ABL. Júlia Lopes de Almeida, é autora de romances como “A Falência” (1901). A obra discute a sociedade carioca, suas hipocrisias e um audacioso enfrentamento dos valores morais da época ao trazer o tema do adultério pelo olhar feminino. Mesmo com sua contribuição pertinente (ou por causa dela), a autora foi simplesmente deixada de lado pela Academia, após fazer parte do grupo de autores que batalharam por sua construção. Hoje a participação de mulheres na ABL é de três para um total de 40 cadeiras, mostrando o quanto ainda estamos longe de ter representatividade, em especial, em espaços ainda ocupados por conservadores, cheios de homens inexpressivos e de cabelos brancos.

 

Lygia Fagundes Telles e meninas censuradas

Lygia Fagundes Telles, uma das poucas mulheres que teve a oportunidade de passar pela Academia, contraria a censura com ao buscar um olhar feminino, mergulhando em temas como a ditadura. Isso acontece em “As Meninas” (1973), obra que nos revela uma tríade de mulheres buscando a liberdade dentro de uma atmosfera de opressão. No romance, Lygia nos apresenta três protagonistas jovens adultas. Cada uma dessas meninas tem uma personalidade bastante peculiar, origem diversa e forma de pensar bem delineada. Lia é uma militante comunista, que conspira contra o regime militar implantado após o golpe de 64. Ela mostra uma visão esquerdista e vê a sexualidade como uma forma de manifestar sua liberdade. Parece ser a mais sensata entre as três amigas, contrariando seu estilo de vida subversivo. Lorena é a personagem sonhadora. Afirma ainda ser virgem e apaixonada por um homem casado que jamais liga para ela. Ana Clara é, entre as três, a única advinda de uma família pobre e disfuncional. Em suas digressões, rememora várias situações de abuso durante a infância, explicando seu comportamento altamente sexualizado, porém sua beleza é sua arma para ascensão social e, ao mesmo tempo, sua prisão. As três meninas juntas revelam três versões das mulheres dos anos 70, três possibilidades de opressão ao gênero feminino e três maneiras de se tentar fugir de um mundo que lhe é adverso.

 

Clarice Lispector e a estrela que não brilha

Clarice Lispector, por exemplo, vai levar a discussão do papel feminino e sua invisibilidade ao seu grau máximo com Macabéa, personagem de “A Hora da Estrela” (1977), apresentando-nos uma protagonista distinta de qualquer clichê romântico, nem bela, nem inteligente, nem rica, nem nada que alguém deseje ser. A icônica Macabéa desperta repulsa ou pena, nunca saímos dessa leitura indiferentes a ela. Interessante destacar a escolha de Clarice por um narrador masculino, nada mais oportuno para representar um olhar julgador sobre uma mulher.

 

Carolina Maria de Jesus e a voz dos excluídos

Não podemos deixar de lado, neste breve roteiro de obras produzidas por mulheres no século XX, aquela foi duramente excluída, tanto por sua literatura, como pela sociedade em si. Carolina Maria de Jesus, catadora de lixo, mãe, favelada, negra, mas também dona de um olhar peculiar e de um ponto de vista digno de destaque, é autora de “Quarto de Despejo” (1960). A obra consiste em seu diário e anotações, exprimindo a dor da fome, do abandono e da invisibilidade. Sua obra é mais uma que quase caiu na invisibilidade, mas felizmente foi resgatada e hoje se encontra em listas de vestibulares e de leituras escolares. Carolina também é homenageada dando nome ao novo prêmio promovido pelo MinC, lançado em abril deste ano e que contemplará 40 autoras brasileiras com R$50.000,00, o maior valor já ofertado a escritoras em nosso país e uma esperança para tornar nossos espaços, tão restritos, amplos e visíveis a todos.

 

E, sim, esta série de artigos sobre minhas aprendizagens lendo autoras mulheres não termina por aqui, em Conta Comigo! Lendo mulheres do séc. XX. Continue acompanhando esta coluna.

 

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