Tamanho não é documento • Cor rosa de pavor

Tamanho não é documento • Cor rosa de pavor

Tamanho não é documento • Cor rosa de pavor é artigo de Monique Bonomini em sua coluna semanal na Expedição CoMMúsica. O livro de hoje é  ‘Ânsia Eterna’,  de Julia Lopes de Almeida, 1862-1934, com apresentação e prefácio biográfico escrito por Cleide Lemos. O e-book pode ser baixado diretamente na Biblioteca do Senado Federal .

 

Porcos são criaturas que habitam um lugar potente na literatura. Do clássico Três Porquinhos à Revolução dos Bichos, de George Orwell, esses animais rechonchudos, de ar bonachão, com focinho de tomada e sua cor de rosa mostram que são muito bons para compor narrativas.

Talvez por isso em 1903 foram escolhidos por Julia Lopes de Almeida para desempenhar um papel na história de Umbelina, uma mulher prestes a dar à luz a um bastardo. A cabocla que vivia assentada numa grande fazenda, cedeu aos encantos do filho do patrão e agora carregava sua semente. Morando num casebre cercada pelos porcos de criação da propriedade, ela é hostilizada pelo pai diante da gravidez desonesta, que decreta o destino da criança assim que ela chegar ao mundo.

É noite quando as dores começam e Umbelina parte atormentada pelas ameaças do pai. Descrevendo a cena em pormenores, invocando as cores e as dores da parturiente, sem floreios, nem romantismos, caminhamos com esta mulher cheia de ódio pelo amante que a desprezou. Experimentamos seu sofrimento, sua angústia e sua raiva, e, no ápice da narração, provamos da ternura que a atravessa por um breve momento, mas não é uma história bonita.

Bastante imagética, a atmosfera do conto, Os porcos, é sombria e pelas beiradas condena o papel da igreja na vida dos pobres e faz crítica ao latifúndio, um contexto pouco comum quando se trata de narrativas de mulheres desiludidas parindo crianças frutos de amores impossíveis. Nesse conto, não há enlevo para a mãe, nem redenção para o amante e o destino da criança é, no mínimo, desconcertante, revelando toda a ousadia de uma autora à frente de seu tempo.

Após ser desconsiderada para a Academia Brasileira de Letras que ela ajudou a conceber, por ser mulher, Julia Lopes de Almeida foi deliberadamente apagada da história da literatura nacional, como se o fato de jamais ter se abalado pelo desprezo recebido fosse uma ofensa, afinal, ela seguiu produzindo e de forma bem sucedida, é bom que se diga.

Além de sua obra ficcional, a autora foi ensaísta e cronista e, através de sua coluna jornalística, tentava conscientizar os leitores da importância da educação e do trabalho justo como meios de transformação da sociedade. Rechaçava a escravidão, combatia a dupla moral com seus códigos diferenciados de conduta, e, sobretudo, destacava a necessidade de emancipação feminina.

Não por acaso, foi presidenta honorária da Legião da Mulher Brasileira, entidade que fundou com Bertha Lutz em 1919 e ajudou a organizar o primeiro Congresso Feminino do Brasil na cidade do Rio de Janeiro, em 1922. À sua maneira, defendeu a educação e o exercício profissional pelas mulheres.

O livro Ânsia Eterna, que abarca Os porcos e outros contos, está disponível numa edição on-line e gratuita pela editora do Senado Federal e conta com uma apresentação biográfica completa da autora por Cleide Lemos. Julia prevaleceu e está imortalizada em sua obra, o que é muito mais significativo do que um número numa cadeira.

Você pode baixar o e-book no site da Biblioteca do Senado Federal.
Pela Biblioteca do Senado Federal – clique aqui

 

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