Cavando Ideias • Nossos irmãos argentinos

Cavando Ideias • Nossos irmãos argentinos

Cavando Ideias • Nossos irmãos argentinos é artigo de Silvia Ferreira Lima em sua coluna semanal na Expedição CoMMúsica e o texto de hoje aborda sua viagem a Buenos Aires e La Plata para participar do 15º Congresso Internacional: Crítica Genética em Portunhol.

 

Cavando Ideias • Nossos irmãos argentinos
Fotografia da Casa Rosada sede federal da Argentina na cidade de Buenos Aires

 

Quando começo por nossos irmãos argentinos é porque somente agora pude comprovar como a Argentina está próxima do Brasil em que vivo. Afinal, vivo na Região Sudeste, no Estado de São Paulo, então, viajar até a Argentina é mais fácil e mais perto do que viajar pelo Norte ou Nordeste do Brasil. Eu também quero ressaltar como eles são afetivos, amistosos, atenciosos, a ponto de ouvir na rua o que estamos procurando e mudar o caminho deles para nos ajudar. Novamente, eu vivi isso. Pude sentir muito respeito e afeto na atenção das pessoas argentinas com as quais entrei em contato. Além do mais, mesmo sem nunca ter estudado espanhol, em poucos dias, eu já estava falando com facilidade, não apenas entendendo o que falavam. Senti realmente muito acolhimento.

Minha viagem começou no aeroporto de Ezeiza, mais próximo de Buenos Aires. Em seguida, fomos até La Plata, para participar do 15º Congresso Internacional: Crítica Genética em Portunhol, uma vez que os textos foram apresentados em espanhol e português, assim como o congresso assumiu as duas linguagens.

Bom, fiquei uns onze dias sem publicar nada nesta coluna porque estive viajando para este Congresso de Crítica Genética ou Processo Criativo, que começou com a pesquisa acerca dos manuscritos literários, conforme o estudo foi trazido ao Brasil pelo Prof.Dr. Phillippe Willemart, atualmente aposentado da cadeira de literatura francesa na USP e continuou aberto a todas as linhas de pesquisa, conforme nos apresentou na mesa de abertura on-line e presencial, com o artigo: “O algoritmo, novo nome do estilo, em formação no manuscrito”. Ocasião em que o Prof. Willemart relacionou a neurologia com o estudo do manuscrito literário. Com ele, dialogava online o Prof. Dr. Daniel Balderston “Libro encontrado en un basurero: el ejemplar de Roa Bastos de El supremo dictador de Julio Cesar Chaves”.

Cavando Ideias com nossos irmãos argentinos

Já na mesa 5, no último dia do congresso, esteve presente o biólogo Charles Morphy, com seu artigo: “Ciência como um processo: sobre a criação científica de Darwin à inteligência artificial”, em que foi resgatada a diferença entre desenvolvimento e progresso na biologia. O que já tínhamos começado a discutir com o artigo de Philippe Willemart. Esse tema, na nossa opinião, trouxe várias discussões, uma vez que os neurologistas nos quais Willemart se apoiou, produziram suas pesquisas por volta da década de 60 ou 70, quando a visão sociológica de mundo e de ciência eram diferentes de como ficaram a partir da década de 80 ou 90 do séc. XX. Essa e outras observações, tais como a inclusão sexual ou racial passaram a constituir outra visão de mundo e com tal força, que não podem mais ser ignoradas em qualquer discussão científica. Seguramente, uma conclusão também comentada pelo artigo do prof. Dr. José Cirillo: “Mosaico es mi vida: proceso de creación y activismo velado en ecosistemas estéticos”, ao levantar a importância do contexto social e histórico na produção de uma obra de arte.

Nessas mesas, já houve bastantes itens para serem pensados. Mas eu gostaria de destacar a relevância dada aos processos educativos, como Oficinas de escrita criativa na escola: exercícios de criação literária como ferramenta para a leitura”, artigo de Allison Leão, Professor da Universidade do Estado do Amazonas, doutorando em Literatura Comparada pela UFMG. Além do trabalho de Alessandra Rodrigues Álvares: “Ensino e Criatividade: a Produção Didática de Português como Língua Estrangeira”, mestranda em Estudos de Linguagens do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, CEFET -MG. De onde podemos concluir que o estudo de processos criativos realmente abrange várias áreas, daí a sugestão dos pesquisadores iniciais de mudarem o nome de Associação dos Pesquisadores em Crítica Genética para Estudos de Processos. Uma vez que já podemos observar como envolve os processos criativos humanos seja nas ciências, como nas artes ou nas linguagens. E realmente, trata-se de um grupo de estudos que envolve todas as áreas da criação humana. Daí, envolver a aprendizagem e a educação.

Claro que fui falar sobre o meu processo criativo, que ultimamente envolve a criação de um livro de poema de minha autoria, envolvendo também a ilustração e encadernação de livro de artista. Tive a oportunidade de dividir a mesa com argentinos e brasileiros interessados na produção de livro de artista, como: “El libro de Artista de Raquel ‘Kuki’ Giubileo: una obra com los otros papeles” apresentado  por Lucía Fayole, da Universidad Nacional de La Plata; além de Fernando Antônio Siqueira Ferreira com: “Um Trikster na Encruzilhada : Trapaça, Jogo e Magia na Literatura Infantil”, que faz doutorado em Estudos de Linguagens do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Cefet- MG. Acrescento que a auto-produção de livros de artista de Fernando Antônio Siqueira é impressionante, tanto que ele vai participar da Feira Miolos na Biblioteca Mario de Andrade em São Paulo no início de novembro. Cito também o trabalho de Cândida Almeida, Professora Doutora da  Faculdade Casper Líbero de São Paulo com sua pesquisa: ” A Poética da GIF-Poesia: Manifesto e Processo de Criação”, artista e escritora de textos maravilhosos.

Eu apresentei meu processo criativo para livro de artista literário, informando como cheguei a produzir gravuras em metal, com uma técnica que recupera a visão dos primeiros gravadores e impressores em metal do séc XVII Hercules Segers, da Holanda. A questão é como uma técnica ou processo ancestral continua vivo e volta a ser usado à medida em que se procura por inovações. E uma brasileira, no séc. XXI, em Campinas, utiliza novamente a mesma técnica sem saber que ela tivesse existido em qualquer momento. Creio que o conhecimento ancestral continua vivo em nossas células, juntamente com todo o conhecimento adquirido pela humanidade.

Acrescentei um poema que escrevi para o céu, para as nuvens, para o brilho do céu e para o que vejo ou imagino quando olho para cima. Para mim, o brilho do cobre que utilizo, brilha assim como o céu brilha, daí, a coerência na utilização desse material. Falei do processo de impressão devido à forma de encadernação escolhida e ao tamanho das matrizes 15×20 cm. Coloco uma fotografia abaixo somente para dar uma ideia. Como para efetuar o tipo de encadernação escolhida preciso utilizar uma prensa de metal que tenha o tamanho de 60×80 cm. Daí, a dificuldade em concluir o projeto inicial, que tinha como objetivo ser digitalizado e distribuído gratuitamente por escolas públicas. Tenho a persistência e a obstinação de uma artista que tem muito prazer no seu processo e mais prazer quando o realiza, mesmo que seja apenas uma obra única. Por isso, o divulguei no catarse e está nos últimos dias.

Urano livro de artista

Fotografia do Boneco do livro de artista Urano
Fotografia do boneco do livro de artista Urano

Nossa irmandade argentino-brasileira foi festejada ao final do Congresso com um sarau em que os escritores, ou melhor, as escritoras, professoras universitárias argentinas, leram seus poemas e nós, brasileiras, também tivemos nosso espaço. Então, o congresso finalizou da melhor forma com o envolvimento latino sul-americano afetivo, maravilhoso.

Amei o congresso, adorei a afetividade argentina. Fiz uma viagem maravilhosa. E para quem também desejar encontrar irmãos latino-americanos, eu recomendo, conhecer a Argentina e arriscar o portunhol.


Para conhecer mais obras de Silvia Ferreira Lima, consulte o site aqui.

Nota: A Expedição CoMMúsica mantém parceria com a banda Draconis e Norberto Ganci, do programa de rádio El Club de La Pluma, com transmissão simultânea Argentina-Brasil. 

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